Contos de fadas e padrões astrológicos tóxicos

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Os padrões comportamentais de Saturno, Urano, Netuno e Plutão, quando em sua manifestação mais tóxica ou doentia, costumam estar presentes nos contos de fada e em histórias que encantaram gerações.

É amplo o espectro do que se pode chamar de “relações tóxicas”. Seguem algumas características possíveis:

– Abuso verbal, psicológico ou físico.

– Não ser escutado.

– Ser desacreditado pelo outro. Não ser valorizado.

– Instabilidade e tensões constantes, estilo “pisando em ovos”.

– O parceiro é intenso em excesso e obsessivo. Exemplo: muito ciumento.

– O parceiro é autoritário e tudo tem de ser como ele quer.

– Ou pode ser egoico e narcisista, e só enxergar a si mesmo.

– O parceiro sofre de transtorno mental, psicológico ou de uma adicção e não se trata.

– O parceiro gera instabilidade constante. Exemplo: é gastador e faz muitas dívidas.

– O parceiro faz chantagens, manipulações e jogos de poder.

– Tendem a e ter um padrão de codependência.

– Traços negativos preponderam sobre os positivos.

– A relação gera cansaço e desgaste.

No Simpósio do SINARJ de 2019, eu e o astrólogo Fernando Fernandse apresentamos exemplos de relações tóxicas associadas a Saturno, Urano, Netuno e Plutão. A Astrologia pode ser uma ferramenta muito útil para mostrar tendências do indivíduo. Faz-se necessário, porém, compreender que o conhecimento de tendências deve servir justamente para evitar determinados padrões. A Astrologia tem um fantástico poder de iluminar questões que pode colocar o indivíduo frente a frente com repetições dolorosas que ele tem condições de modificar, caso decida iniciar um sério trabalho de transformação interna, muitas vezes a partir de terapia.

O conto de Cinderela e Saturno

A infância é onde padrões tóxicos tendem a se formar. O conto de Cinderela seria um bom exemplo. Na ficção, depois do encontro com o príncipe, a “ex-gata borralheira” parte para o “felizes para sempre”. Na prática, as abusivas relações tóxicas infantis com características de Saturno costumam deixar marcar profundas, que fazem o consulente encontrar, na vida adulta, o mesmo padrão de escassez da infância.

E como se nota Saturno no conto de Cinderela? Há diversos sinais:

  • privação e orfandade dos pais desde cedo (observe que, não raro, há “orfandades simbólicas”, em que os pais, por qualquer motivo, não cumprem o papel de dar apoio a criança);
  • complexos e sensações de “ser menos”, uma vez que o apelido de Cinderela é “gata borralheira”, ou seja, a que vive nas cinzas do fogão ou da lareira;
  • solidão (muitas vezes, interna, mesmo que a pessoa esteja rodeada por outras);
  • abusos constantes propagados pela madrasta e pelas irmãs adotivas, forjando um padrão de resistência que pode funcionar de forma ambivalente em relações tóxicas.

Para ser caracterizado um padrão saturnino, bastariam os três primeiros itens.

Alice no País das Maravilhas e Netuno

A imaginativa história de Alice no País das Maravilhas remete diretamente a Netuno. Este planeta cumpre uma função de transcender, encantar e suavizar. Está associado a imaginação e sensibilidade.

Todavia, no seu excesso, funciona como uma droga que traz dificuldade em enxergar a realidade, e, claro, em lidar com ela tal qual ela é.

As relações abusivas de Netuno estão sempre calcadas em algum tipo de cegueira, como se a pessoa vivesse em um mundo à parte, como Alice. Os abusos e dificuldades afetivas ocorrem por não se enxergar o(a) parceiro(a) ou a história como realmente é, ou por não se perceber o rumo que a relação está tomando. Há sempre uma fantasia.

Muitas vezes, as histórias caminham para sérias inconsistências, em que o(a) maior prejudicado(a) é o(a) dono(a) do mapa.

Chapeuzinho Vermelho, que confunde o Lobo Mau com sua bondosa avó, também seria um outro bom exemplo de história de Netuno.

A capacidade de converter sapos em príncipes é um perigoso atributo netuniano. Pois, muitas vezes, sapos ou cobras são o que são, e não príncipes ou princesas.

A Bela e a Fera e Plutão

As relações tóxicas de Plutão são marcadas por muita intensidade, como uma forte atração ligando duas pessoas em um padrão destrutivo. Nestas relações, há sempre uma temática de “quem domina quem”. Pessoas que fazem mau uso do poder têm Plutão em destaque no mapa (mas a contrapartida, ter Plutão em destaque, não significa fazer mau uso do poder), e pessoas que encontram “tipos plutonianos” também têm este planeta forte. Um bom exemplo de relação tóxica de Plutão é a do filme O Poderoso Chefão – II, de Francis Ford Coppola, de 1974. O mundo da Máfia é um submundo negativo de Plutão, em que tudo é resolvido à base de bala, violência, dominação, castigo e poder. No filme, Michael, herdeiro da família Corleone, que a princípio não queria se envolver em seus negócios escusos, ascende com o novo chefão. Todavia, não era um chefão ou um membro da Máfia quando a jovem Katherine o conheceu. E é óbvio que o exercício de um poder deste porte transforma uma pessoa, criando uma série de traços negativos autoritários e reflexos em um relacionamento.

Por isto, cito “A Bela e a Fera” como um conto plutoniano, uma vez que há uma dicotomia entre os protagonistas, em polos aparentemente opostos, e uma promessa de que a fera, certamente um tipo plutoniano, poderoso, intenso e recluso, possa ser libertada pelo “amor verdadeiro”. Na vida real, um plutoniano “até o último fio de cabelo” raramente larga o osso, pois não conhece outro tipo de relação que não a de dominação e submissão do parceiro e/ou de outras pessoas, de muitas formas. Quem viveu relações plutonianas de disputas de poder ou de submissão ao poder sabe o quão desgastantes podem ser.

A pequena sereia e as relações tóxicas de Urano

Vamos a um breve resumo do conto A Pequena Sereia: trata-se de uma princesa do reino do oceano que faz um trato com uma bruxa para se tornar humana. O feitiço, todavia, só pode se tornar permanente se um príncipe humano se apaixonar pela princesa. Se isso não acontecer, ela se transforma em espuma, e deixa de existir.

O que há de uraniano nisso? Primeiro, o exotismo. É uma sereia  – e isto por si só é exótico –, e uma sereia que quer ser humana. Olhe a inquietação e busca por novidade, típica de Urano. Também é deste planeta a condição humana e impermanente. E preste bem a atenção na última frase: “se alguém não se apaixonar pela pequena sereia, ela se transforma em espuma e deixa de existir”.

Toda pessoa com Urano em destaque no mapa astrológico sabe como “ se transformar em espuma”, isto é, desaparecer de forma súbita da noite para o dia. E as relações tóxicas de Urano são feitas de tudo o que é provisório. Podem começar de forma provisória, continuarem assim e sumirem do dia para a noite, a partir do simples bloqueio em um aplicativo. Estão muito baseadas, também, em curtições temporárias.

Não pense, portanto, que a pessoa com Urano forte vai ficar muito tempo lamentando o final de uma relação. A facilidade em se “desgarrar” e a atração por novidades e adrenalina fazem com que se lance em uma nova aventura com relativa rapidez. O grande problema é o rastro enorme de aventuras assemelhadas e sem concretização. Há uma dificuldade em criar compromissos, ou sintonizar com esta possibilidade, e também em compreender a limitação deles (algo como “ter de viver no oceano”, para a pequena sereia, ao invés de conhecer outros mundos, como ela gostaria).

Temos apenas um tipo de perfil?

Algumas pessoas podem ter apenas um tipo de perfil, mas é comum que mesclem fortemente dois perfis. Por exemplo, se não estão nas desgarradas relações uranianas, podem estar vivendo as absorventes e difíceis relações plutonianas. Ou então podem ter um duplo padrão de Netuno e Saturno ao mesmo tempo: não enxergarem claramente o parceiro e a relação, aceitando algo que lhes dá muito pouco em troca. Já aquela pessoa que idealiza e sofre por causa de parceiros altamente dominadores e lesivos, que fazem dela gato e sapato – e mesmo assim ela ainda quer mais! – pode ter uma combinação de Netuno com Plutão. E assim por diante, em várias combinações possíveis.

No Curso on line de junho/julho/2020, “Astrologia e Amores Tóxicos” eu e o astrólogo Fernando Fernandse vamos aprofundar características de cada um destes padrões e trabalhar com exemplos de mapas astrológicos. Venha para esta jornada de autoconhecimento, pois dificilmente alguém nunca teve uma relação tóxica na vida. A questão é como não continuar a se envolver em relações lesivas e como reconhecer padrões que às vezes já estão profundamente enraizados.

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