A Forma da Água: a porção Peixes que nos habita

Por

“A Forma da Água”, ganhador de Oscar de Melhor Filme e Direção de 2018, é um filme ligado ao signo de Peixes, que pertence ao elemento Água. Ele está presente no título, no universo, nos protagonistas e na história. Para a Astrologia, temos os doze signos dentro de nós. Assim, há um pouco de Peixes em cada um de nós. Você também tem um pouco do signo que está por trás deste filme.


No artigo Quíron, Peixes e a ferida aberta dos anos sessenta mostramos que o diretor Guillermo del Toro é libriano, mas foi através de sua porção Peixes que criou o poético e lírico A Forma da Água. Também contextualizamos a época em que se passa a história: um período em que Urano e Plutão em Virgem formavam oposição ao asteroide Quíron no signo de Netuno. Se você leu aquela introdução, agora é possível começar a entender o filme.

A Forma da Água é repleto de elementos piscianos

A Forma da Água é marcado do início ao fim por simbolismos piscianos – além da violência do pior uso de Plutão e Urano – em diversos elementos e detalhes.

A começar por sua protagonista, Elisa. A jovem é muda como um peixe. É assim porque sofreu violência precoce quando bebê (a crueldade já citada como uma das marcas dos filmes de Del Toro). Sua laringe foi cortada violentamente e a neném foi encontrada na beira de um rio, lugar associado a Peixes. Marcada pela violência e por um rio, novamente irá encontrar ambos mais tarde. Vida que se repete, como a de todos nós.

Apesar de não falar, seu mundo é cheio de colorido e ritmo, conforme mostra a parte inicial do filme. O melhor amigo dela é um pintor, profissão pisciana (bem como ser músico, artista, fotógrafo etc). Juntos, eles assistem à produção cultural hollywoodiana, com seu glamour, romances, sapateados, em momentos de deleite altamente ligados ao décimo-segundo signo (se você, como a autora, ama cinema, tem um pé em Peixes ou Netuno em destaque). Elisa tem um coração boníssimo, e todas as manhãs prepara ovos cozidos para levar para o seu lanche e também presentear o pintor, um sujeito simpático, solitário e à margem do sistema.

Elisa, a protagonista pisciana
Elisa, a protagonista pisciana

Peixes rege os pés, e a protagonista ama belos sapatos, que espia nas vitrine. Ela é órfã (pessoas com fortes marcas piscianas muitas vezes se sentem desta forma), trabalha como faxineira (serviços de limpeza são regidos por Virgem, signo complementar a Peixes) e sua melhor amiga é uma colega que a protege e para quem o mutismo de Elisa é perfeito, pois fala pelos cotovelos, sempre reclamando do marido ou de qualquer outra coisa. A amiga seria a sua contraparte virginiana, reclamona, eficiente, mas prestativa.

Ambas trabalham em um grande laboratório, mantido por militares. Locais secretos pertencem ao 12º signo. Nele está sendo mantido um grande aquário que abriga uma criatura com traços humanizados que consegue respirar fora da água por algum tempo, mas que precisa voltar sempre ao seu habitat.

A época é a da corrida espacial e da guerra fria, e cogita-se, assim, enviar a exótica criatura para a Lua. Há um cientista russo infiltrado fascinando por estudar um ser tão diferente. Mas a criatura, contudo, se torna a diversão do cruel chefe de segurança, que começa a provocá-la e maltratá-la. O chefe é um homem totalmente desprovido de empatia (assim como o capitão de “O Labirinto do Fauno”), frio, violento e abarrotado de preconceitos. Acha ser o topo de linha do que seria um ser humano superior e enxerga pessoas de origem africana, empregados, criaturas fantásticas, portadores de alguma deficiência ou quem quer que esteja à margem do sistema como seres de segunda ou terceira categoria.

A doce protagonista pisciana

Musical, silenciosa, leve e esperançosa, Elisa vive uma vida normal. Ela coloca um toque de prazer na sua rotina, que inclui seu momento de masturbação na banheira, a preparação de seus ovos, a visita a seu amigo pintor. Vivendo um pouco no “mundo na Lua” (característica pisciana também), chega sempre atrasada no trabalho, mas sua colega e amiga a deixa passar na frente dela para bater o ponto, o que, é claro, não agrada quem está na fila.

Apesar de levar uma vida normal, a moça sabe que não é considerada assim. Tem consciência de que está à margem, condição associada ao simbolismo de Peixes (signo dos loucos, doentes, frágeis, sensíveis, pobres, mas também dos gênios, artistas, santos, poetas, criadores etc.). É assalariada, muda, órfã, sem marido e filhos e trabalha como faxineira. Mas nem por isto é infeliz. Ela sabe como criar um mundo interno próprio muito rico e especial, em um dom secreto que também pertence a seu signo.

Quando descobre que há uma criatura exótica no laboratório, ao invés de temer, ela procede como nativa do elemento Água (Câncer, Escorpião e Peixes): tenta se aproximar. Teria tudo para ficar longe do que poderia ser um monstro, visto que presencia o resultado do que teria sido um embate sangrento entre ele e o chefe de segurança. Este último, em uma cena no banheiro do local, onde encontrou Elisa e sua colega fazendo a limpeza, já tinha mostrado toda a sua carga de preconceitos e arrogância.

O vilão: o chefe da segurança
O vilão: o chefe da segurança

Acostumada a ser socialmente preterida, a moça não trata o ser do aquário desta forma, e tenta iniciar uma terna amizade, oferecendo seu presente predileto: ovos cozidos. O ser está enfurecido por ser cutucado, maltratado, machucado e tripudiado, mas aos poucos percebe que a suave jovem não tem medo dele, e que tampouco pretende ou pode machucá-lo. Começa, então, uma silenciosa e delicada interação entre os dois, quando Elisa passa a gostar de visitar secretamente a criatura.

Comunicação poética de Peixes

A interação entre Elisa e criatura passa a se dar por gestos e olhares. Peixes rege toda linguagem não verbal, e, assim, não é à toa que a protagonista é muda. É o auge do arquétipo deste signo. Imagens e sons são elementos da arte pisciana. E, quando opta por palavras, prefere as letras de música e a poesia. Ele quer atingir a sensibilidade, o sentimento, a alma, e por isto guarda em si o sensível, o transcendente, o frágil e o mágico. A arte pisciana é feita para tocar diretamente o coração. Para a Astrologia, Netuno, o regente deste signo, abrange aquilo que é difícil de se colocar em palavras. A conexão com o Universo e o Divino, por exemplo, é representada por este planeta.

Começo de uma relação

E o amor entre Elisa e a criatura nasce do olhar. O olhar é o código dos enamorados. Mas quantas pessoas não se olham mais depois de estarem juntas? É um simbolismo para não enxergarem mais de fato. Quantas vezes o beijo, o toque e a delicadeza são esquecidos ao longo do tempo, da rotina e da repetição? Elisa, que sabe dar vida e cor a sua rotina simples, enxerga a alma da criatura, que, por sua vez, passa a ver a dela também.

Segundo o chefe da segurança, a criatura aquática era venerada e considerada um deus na Amazônia, onde teria sido capturada. No laboratório, porém, tornou-se um animal maltratado, enfurecido e perigoso, capaz de mutilar com sua enorme força. O traço cruel do ser humano muitas vezes gerando monstros que criam outros monstros.

Peixes: o signo que vê os que não são vistos

O décimo-segundo signo é o da empatia. Aquele que enxerga os que são ignorados, como a psiquiatra Nise de Oliveira fez com os pacientes de casas de internação ao revelá-los através da pintura. Então, para o olhar de Elisa, há inteligência e ternura nos olhos no ser aquático. Eles se miram através de vidros grossos ou interagindo à beira do tanque. Apesar das mãos com garras cortantes e brutalmente afiadas, ele toca com leveza na frágil moça e aceita seus presentes.

———–

Vai começar a segunda parte do artigo. Atenção, a partir deste ponto, o artigo contém spoiler, isto é, revela o enredo do filme. Caso não queira saber o que irá acontecer, continue a ler o artigo somente depois de assistir ao filme.

———–

Ponto de virada

Um dia, Elisa descobre que os oficiais pretendem dar fim à vida da criatura. Sensibilizada e apaixonada, ela engendra um plano para salvá-la. Sozinha não conseguiria, então precisa tentar convencer seu amigo pintor, que em um primeiro momento acha uma loucura e se recusa a ajudar. É quando se vê uma Elisa realmente zangada e até agressiva. Depois de resistir, para não perder a preciosa amiga, o pintor resolve ceder à loucura. No meio do caminho, a colega faxineira de Elisa também vai acabar envolvida. Apesar de ser um momento crítico, é quando o amor entre Elisa e sua “Forma da Água” realmente irá começar a florescer.

Ao levar a criatura para casa, a relação sairá do terreno da paquera para o aumento da intimidade. É também quando a personalidade do ser, seus poderes e sua inteligência começarão a se mostrar melhor, em episódios que irão envolver tanto Elisa quanto seu atônito amigo pintor, que, a contragosto, vai ter que começar a se relacionar também com o enigmático ente aquático. E este relacionamento irá render vários episódios curiosos.

Amor de Vênus em Peixes: uma entrega profunda

A Forma da Àgua: erotismo netuniano.
A Forma da Àgua: erotismo netuniano.

No aumento da intimidade, Elisa e sua criatura descobrirão pela primeira vez juntos o estímulo erótico. A princípio, isto irá assustar a moça, mas ela, que nunca pôde ter uma vida considerada “normal”, por não poder falar, apesar disso nunca excluiu a sexualidade da sua vida, sendo, assim, muito mais resolvida com isto do que outras mulheres do seu tempo, que muitas vezes se reprimiam e eram reprimidas. E ela sabe que ama a criatura. Pela primeira vez, encontra alguém que a compreende totalmente e a valoriza, da mesma forma que ela faz com ele. E não seria esta exatamente a essência do amor, uma conexão profunda e íntima? Este parece ser a expressão de Vênus, o planeta do amor, no signo de Peixes. Vênus tem exaltação neste signo. Quando transita por ele, aumenta a sensibilidade para arte e beleza e a delicadeza e tolerância nas relações.

Um sentimento recíproco e envolvente passa, assim, a crescer entre eles. É um amor de Vênus em Peixes, idealista e capaz de sacrifícios, como salvar a criatura e saber que um dia terá de soltá-la na água porque não é capaz de proporcionar a ela um habitat como o do laboratório. É também um amor pisciano porque nele as diferenças se diluem e deixam de existir. Não há mais separações entre o humano e um ser que parece humano, mas que não é. O amor une e dissolve as diferenças, em um efeito pisciano. Aproxima, faz cuidar e compreender.

Em uma das cenas mais belas do filme, Elisa enche o banheiro inteiro de água, quase até o teto. A água, assim como o amor de Elisa e seu ser aquático, transborda, e vaza pelo piso inferior, alagando todo um cinema (local, diga-se de passagem, pisciano). Mas enquanto a água inunda a sala de projeção, a jovem e seu amado flutuam nela, fazendo amor. Ela o presenteia com o elemento dele, a água. O amor de Vênus em Peixes pode se moldar ao outro ou homenagear o outro. Nele, se aprende a ceder, idealmente sem se descaracterizar, e se transita pelo universo do amado.

Por um instante, antes da primeira vez em que tiveram relações, que antecedeu esta cena magistral, Elisa hesitou quando percebeu que um intercâmbio erótico estava acontecendo, mas se há algo bom em ser excluído, em estar à margem, é nunca ter nada a perder. Ela é uma mulher corajosa, capaz de se aproximar de uma criatura que era considerada violenta e perigosa, e de se apresentar, nua e inteira como mulher, para se entregar a ela.

O amor da jovem, assim, é pleno e transbordante. Apesar disso, ela marca no calendário o dia em que terá de deixar o amado na beira de um rio, para que ele parta e sobreviva. Ele tem sinais de esgotamento e doença (Peixes também rege fragilidade) em razão de estar em um ambiente que lhe é insalubre, e, assim, a faxineira não pode mantê-lo. Seu amor o quer vivo, ainda que distante dela.

O melhor final

Então, no dia de uma copiosa e intensa tempestade, que já estava rabiscada no calendário, ela leva seu par, que a esta altura se revelou muito mais inteligente, sensível e dotado de poderes do que se imaginava, para a beira do rio, de onde terá se despedir dele. Ele reage de forma atônita quando ela explica que não podem mais ficar juntos. Mas ela precisa fazer isto, ainda que ele não compreenda. Tanto ela quanto ele se veem juntos agora, e não mais separados. Se você ama, não quer se imaginar vivendo separado de quem gosta.

Contudo, o destino atua pelas mãos do chefe de segurança, que precisa encontrar de qualquer forma a criatura fugitiva para não perder tudo o que conquistou na carreira. Ele tem um superior tão esmagador, autoritário e violento quanto ele. Uma reprodução do sistema, como já foi dito.

É este homem, contudo, quem precipita o destino de Elisa, e vai permitir, indiretamente, que ela seja muito mais feliz do a princípio imaginaria que seria. Ele tenta matar inutilmente a criatura, mas só consegue tirar a vida da moça. Mas a criatura, revelando muita inteligência, fere, então, a laringe do chefe de segurança, para que ele também fique mudo, e, assim, compreenda minimamente aqueles que denigre. A seguir, o ser aquático desce com o corpo de Elisa para o rio.

A moça flutua debaixo da água, encantadora e sem vida, com um pé calçado com um lindo sapato vermelho e outro descalço (assim sempre foi sua condição, rica por dentro e à margem por fora). Da mesma forma que em “O Labirinto do Fauno”, os limites do real e do imaginário são rompidos ao longo do filme, e os da vida e da morte no final. A morta Elisa, pelos poderes sobrenaturais do seu deus aquático, abre então os olhos e respira tranquilamente na água, pronta para uma nova vida ao lado do seu amor. Este final não agradou a muitos críticos, mas certamente ressoou como música no coração dos filhos de Netuno.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *