Uma Crise Abissal: um conto sobre os trânsitos de Plutão

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O conto “Uma Crise Abissal” seria um bom exemplo de como atua um trânsito em nossa vida, particularmente, um trânsito de Plutão. Plutão é o planeta ligado a profundas transformações. Entretanto, para fazer isto, precisa erodir desgastadas estruturas. E o primeiro efeito disso seria revelar o que não vai bem.

Nenhum trânsito começa do nada, e isto é ainda mais verdadeiro em se tratando de trânsitos de Plutão. Enquanto Plutão se aproxima de um planeta, começa a enviar seus sinais. Os bons filmes de suspense, tema plutoniano por excelência, exploram isto muito bem. Antes que uma determinada situação culmine, há pequenos sinais de que algo está errado, de que ocorre, de maneira quase silenciosa, alguma coisa fora do comum. Os personagens mais sensíveis sentem isto, mas a maioria ignora, tal como na vida real. E tal como o protagonista do nosso conto.

Antes de conhecer Helena – o agente que irá detonar o trânsito de Plutão que é dele, mas que ele insiste em apontar como obra exclusiva da amada (ou odiada) – a vida do protagonista está dando sinais de desgaste. A excessiva banalidade em que ele está imerso e a insatisfação com o novo comportamento da mulher de se dedicar excessivamente à carreira são indícios de que algo vai mal em sua vida. Tal insatisfação é visível no seu comportamento dentro do supermercado. Enquanto a moça a sua frente – Helena – conversa com outros e descontrai, ele está soturnamente pensando em sua esposa, pessoa com quem tem clara dificuldade em discutir de forma mais profunda, o que parece ser uma característica do relacionamento em si mesmo. A esposa, por sua vez, parece ser uma mulher típica do Ar: articulada, intelectualizada, racional, no domínio de seus impulsos. Ela desdenha da queixa dele, de que ela estaria mudada demais, dedicando-se excessivamente ao trabalho. Segundo ela, ele é apenas machista, e embora o protagonista não concorde com esta classificação, de alguma forma ele aceita e não se aprofunda. Ou seja, este conflito não é discutido, e o protagonista não dá vazão à profunda insatisfação que o novo comportamento da mulher lhe causa, a qual desperta seus próprios assuntos mal resolvidos. A partir da sua insatisfação, haverá algo de não expresso, de primitivo, de não trabalhado, cuja via de escape será a relação afetiva e sexual mantida com Helena, a futura amante.

Voltando, porém, a cena do supermercado, há algo significativo no fato de o protagonista conhecer Helena lá. Supermercados são estabelecimentos lunares, uma vez que estão ligados ao abastecimento do lar. E, justamente, o protagonista se encontra extremamente carente do elemento lunar de sua vida. Sua mulher está afastada, física e emocionalmente, sendo que a Lua representa intimidade, proximidade e a chance de se expressar sentimentos, que, em seu caso, encontram-se fortemente reprimidos. Ele se sente carente. E lá está Helena, em um supermercado. Diferente de sua distante esposa, que freqüenta o ambiente acadêmico, Helena circula nos lugares comuns, fala com pessoas também comuns, relaciona-se com donas de casa e porteiros. Na descrição física de Helena, também predomina seu lado feminino. Helena tem quadris largos, um símbolo de feminilidade, da mulher parideira, da mãe em potencial, enquanto a esposa do protagonista é longilínea e mais etérea. Helena é mais carnal, até em um sentido de ser uma pessoa mais presente.

Entretanto, o protagonista não se interessa por Helena enquanto está no supermercado. Lá ela é apenas um elemento periférico, enquanto ele está ensimesmado, sendo este, aliás, um outro sintoma de Plutão. Tanto é um sintoma de Plutão que será acentuado quando Helena partir, fazendo com que o protagonista viva aprisionado em seu próprio mundo. Mas, voltando à narrativa, o protagonista nota Helena na medida em que ela tropeça e cai – tornando-se, portanto, humana, acessível, tudo o que sua mulher naquele momento não está lhe parecendo ser. A hesitação da moça em aceitar o convite dele para uma carona, já que ela havia se machucado, atiça o seu interesse, que descobre que ela mora no prédio em que o amigo recém-separado também mora. Este, aliás, seria apenas mais um dos componentes plutonianos presentes no conto. A separação é um tema de Plutão, e o protagonista só está se envolvendo com pessoas alinhadas com este tema. Seu amigo não é um feliz recém-casado, e sim, um recém-separado, condição a qual em breve ele próprio será alçado. Não é com seus amigos felizes que ele está identificado, e sim, com este, a quem ele passa a encontrar mais seguidamente. Saem para beber, talvez para extravasar suas mágoas, ou encenar uma pretensa liberdade feliz de homens livres. Em todo caso, não se trata de um ruidoso encontro em um grupo, e sim, de uma solitária parceria dois amigos que andam se sentindo meio rejeitados.

Voltando à história, o protagonista acaba encontrando novamente Helena, que não o reconhece, e para quem ele é obrigado a se reapresentar. Ela, como da primeira vez, logo lhe desperta o interesse (talvez até por este detalhe de não lhe ser imediatamente acessível), e ele passa a disputá-la com o amigo nas noites em que os três saem para tomar chope. Novamente, cria-se um contraponto com a mulher. Ela está distante, e Helena, próxima. Helena acaba se tornando um ponto de interesse, de motivação, em sua vida esvaziada. Ela representa a possibilidade de reavivar um erotismo – e os trânsitos de Plutão costumam mexer com este tema também – que está um tanto apagado e abalado, já que o protagonista não se sente mais valorizado como homem. Em suma: ele tem uma chance de reformular uma idéia que tem de si mesmo.

Até o momento em que se envolve afetiva e sexualmente com Helena, porém, todos os traços plutonianos encontram-se ocultos. Esta mornidão excessiva pode ser um sinal perigoso de que algo vai explodir, se intensificar, emergir. Quando o protagonista se apaixona por Helena, o trânsito de Plutão é detonado. Em primeiro lugar, surge nele uma intensidade que ele não estava manifestando. Em um certo sentido, é uma injeção de vida em um contexto que parece estar precisando de transformações, mas em que uma palha sequer é movida para isto, seja por ele ou pela esposa.

A forma como o protagonista se envolve com Helena, por sua vez, é tipicamente plutoniana. Há uma sede por domínio. Ele se sente tomado por Helena, e por isto quer sugar a vida dela também. Ela, percebendo isto, coloca limites, como os encontros em dias programados, o que, no mínimo, significa que entende os processos plutonianos, e a respeito disso vamos falar em breve. O que o protagonista não percebe, porém, é que quer retirar de Helena algo aquilo que faltava em sua vida, e que não pode não pode ser tirado de outra pessoa, e sim, somente de dentro dele mesmo, de uma nova atitude que ele precisa ter. É ele quem precisa mudar. Em trânsitos de Plutão, porém, é comum que um elemento externo surja com as qualidades que nós temos de explorar em nós mesmos. O outro vai encarnar aquilo que está oculto em nós. Porém , faz parte do próprio processo do trânsito, em algum momento, e muitas vezes da forma mais difícil possível, se perceber que aquilo que estamos desesperadamente tentando tirar do outro tem de ser buscando lá no fundo de nós mesmos, e desenvolvido em nós.
E o que o protagonista precisa desenvolver? Poder, vitalidade, confiança. Faltam qualidades yang (masculinas) em sua vida, tanto que ele vai procurar isto na amizade com o amigo recém-separado.

Conforme já falamos, o início da manifestação externa do trânsito de Plutão deu, ao protagonista, uma injeção de vida. Mas não apenas isto: Plutão é o planeta do poder, e o envolvimento com Helena despertou no protagonista sua própria potência. Ele se tornou mais agressivo nos negócios, passou a perseguir mais diretamente seu sucesso, a ter mais clareza a respeito do que queria. Porém, como tudo isto é acionado por um elemento de fora, e não compreendido internamente, ele não tem noção de que esta energia vem dele mesmo, e por isto se esvazia totalmente quando Helena o abandona. Ele aprendeu a acionar estas características através da relação. Nas temáticas afetivas que envolvem Plutão, esta intermediação costuma fazer parte do cenário. É a relação quem dá força. Pessoas com Plutão forte podem achar que estão na completa escuridão sem uma relação intensa que as mobilize. Mesmo que as mobilize de uma forma negativa. É o efeito tudo ou nada. Ou estão em uma relação intensa, não importam as conseqüências, ou não são nada. Como elas têm verdadeiro horror ao nada, ficam com o tudo, e tudo MESMO. 

Paixão: um tema plutoniano 

A paixão é um tema plutoniano por excelência. Em trânsitos de Plutão, você está sujeito a se apaixonar de uma forma cega, violenta, que é o que ocorre com o protagonista. Porém, o que está por detrás desta paixão é um processo de mudança interior, com conteúdos psíquicos emergindo. São suas compulsões, seus medos, é o que está reprimido, é o seu sentimento de desvalorização e rejeição que está vindo junto com a tal paixão. Esta paixão, portanto, tem algo de catártica. E, por isto, com o tempo, poderá expor o pior de cada um dos amantes. Suas fraquezas, necessidades de manipulação, falhas, inseguranças. Se, porém, o trânsito de Plutão não for utilizado conscientemente para se mudar algo, depois de se VER o que estava dentro de si mesmo, todo este lixo psíquico irá emergir para mais tarde se acomodar novamente no fundo. Entretanto, Plutão sempre realiza alguma forma de limpeza, ainda que mínima. Uma parte do lixo psíquico é necessariamente eliminada. Não é possível se entrar em contato com coisas que andavam ocultas sem que algo seja mexido.

Outro fato comum durante um trânsito de Plutão, é que aquele elemento externo terá um papel, ainda que muitas vezes passageiro, de curar a dor de rejeição. Porém, este elemento servirá apenas como um tampão se esta rejeição não for realmente trabalhada, e no próximo trânsito de Plutão ela novamente virá à tona. Porém, inicialmente, a paixão vivida em um trânsito de Plutão tem um efeito de descoberta, de elevamento, de se experimentar algo de maneira mais pura, mais forte. A intensidade causa a impressão de que se vive algo que não é comum, e que tanto você como o amado não são comuns. Cria um mundo à parte, cheio de significados. Acabou-se, aparentemente, a dor da rejeição, está-se em um mundo especial, até que a rejeição vai voltar com tudo, pois trânsitos de Plutão muitas vezes têm um efeito bumerangue: aquilo que aparentemente foi uma solução ou algo maravilhoso gera tal apego que a ameaça da perda descobre novamente a rejeição. É como se descobrir um remédio muito potente para um mal que se tem e, a seguir, saber que o frasco do remédio acabou… É assim que os trânsitos de Plutão atuam. O objetivo final talvez seja que o remédio seja secretado de dentro de si mesmo. Porém, o efeito inicial será, necessariamente, o de abstinência, que se imaginará ser eterna. Parte da beleza de um trânsito desafiador de Plutão é descobrir que, contrariamente ao que se imaginava, aquilo que se pensava perdido ou incurável pode ser refeito. Mas até que se chegue a este ponto, o indivíduo não pode crer nisso, e por isto se lança freneticamente atrás de seu pretenso remédio: o outro que nos magoou, traiu, que nos rejeita. Precisa-se do outro mesmo que não se queira. Pensa-se que ele tem o que não temos.

Mas por que exatamente Plutão tem este efeito inicial de, perigosamente, preencher o terrível sentimento de rejeição? Plutão é aquele que descobre o tesouro nos escombros, que representa o petróleo na terra que ninguém quer, o tesouro naquilo que é desprezado. Os trânsitos de Plutão muitas vezes pegam esta dor da rejeição e levam-na à gloriosa iluminação, e por isto o outro, que funciona como intermediário deste processo, tem tanto impacto. Está se vendo nele a luz que é nossa. Ele está significando algo que queríamos alcançar dentro de nós. O nosso remédio, como já dissemos.

A pessoa apaixonada atingida por um trânsito de Plutão tende, assim como ocorre com o protagonista, a se redescobrir de alguma forma. A soma da sua energia com a energia da outra empresta a ela vivacidade, poder, magnetismo. Na realidade, não é o outro quem faz isto por ela, e sim, a própria situação quem libera esta energia aprisionada. É o príncipe que fora engolido pelo sapo que de repente salta para fora, em uma intensidade incomum, em um processo impessoal, que é como os trânsitos de Urano, Netuno e Plutão atuam. Entretanto, como é a paixão quem a alimenta o notável desabrochar, tem-se a ilusão de que é o outro quem dá sentido a nossa vida, quem faz com que sejamos mais, que vivamos mais, que queiramos mais. Ou que,em palavras ainda mais fortes, que existamos. O outro tem o poder. O outro é tudo. É exatamente este o processo que o protagonista está vivenciando, e que as pessoas com Plutão envolvido com planetas pessoas e com a casa sete, tendem a repetidamente viver. Elas não suportam não existir sem um outro.

Quando escreve ou conta para alguém a sua história, o protagonista se encontra ainda sob o impacto profundo desta energia inicialmente reparadora, preenchedora, de Plutão. A completa ausência de luz após a partida de Helena é o sentimento de algo lhe foi retirado. Algo que ele ainda não aprendeu a manejar em si mesmo, e que Helena, com uma varinha de condão, havia descoberto como manipular. Mas como ele ainda não sabe fazer isto, como não descobriu aquilo de bom que há em si mesmo (ou não quer descobrir), e que pertence unicamente a ele, o protagonista tem a impressão de que sua vida foi roubada quando Helena parte. E, assim, o protagonista empresta a Helena traço sobre-humanos, ora ela é um anjo, um demônio ou um ET. Pessoas que vivem relações plutonianas podem reconhecer este padrão, pois fazem isto o tempo todo com o ser amado. Helena, na realidade, é uma projeção do protagonista. Ela não tem toda a força e poder que ele enxerga nela. Em boa parte, a razão do ressentimento que ele tem é porque ela leva embora aquilo que ele colocou em si mesmo, sendo uma nova pessoa que se via através dos olhos de Helena, ou do que ele achava serem os olhos de Helena. Em processos plutonianos, queremos reter o outro, pois há uma parte dele em nós. É como um pacto de sangue.

Porém, Helena não poderia ser uma projeção se não pudesse se encaixar perfeitamente nela. Helena é plutoniana, pois, sob o efeito de um trânsito de Plutão, seria somente um plutoniano que o protagonista poderia encontrar. Como ser plutoniano que é, Helena passa por metamorfoses sutis, mas, ainda assim, metamorfoses. Em trânsitos de Plutão, o outro, quando conhecemos, nos parece mais ingênuo, inocente, do que é. A pouca importância que damos a ele, porém, é o que acaba nos enredando mais tarde. Ficamos dependentes sem perceber. Plutão tem muito a ver com os processos de subestimar e de se enxergar com mais poder do que se tem. Esta é uma das maiores armadilhas de Plutão. Helena começa sendo lunar, quando o protagonista a encontra no supermercado. Emotiva, simples, descomplicada. Porém, ela é mais complexa do que aparenta ser. Inclusive, o protagonista claramente se ressente disso. Ele sente que levou gato por lebre, mas, nisso tudo, ele não vê a própria arrogância com que conduziu todo o processo, e que, em última instância, é o que o leva a ruína. Esta é outra temática plutoniana: onde somos hiperconfiantes, onde nos vemos como superpoderosos, estamos sujeitos a grandes tombos.

Mas por que Helena seria plutoniana? Helena tem componentes de Sagitário e de Urano, na medida em que deixa claro que valoriza a liberdade acima de tudo (embora o protagonista não suporte ver isto, porque isto agride sua onipotência). Seu interesse religioso, sua ânsia por conhecer o mundo, são componentes de Sagitário. Helena também é solta, bem humorada, se relaciona com todos, não cria raízes e está sempre de bem com a vida, traços sagitarianos bem evidentes. Entretanto, por detrás de tudo isto está Plutão. Em primeiro lugar, a história de Helena parece ser altamente plutoniana: ela já teve um marido violento, de quem teve de fugir, e a mãe a impediu, provavelmente exercendo algum tipo de coerção, que ela se tornasse freira. Além disso, se sente abandonada pelo pai, a quem despreza e tem ódio. Há elementos plutonianos de sobra em seu passado. 

Trânsitos de Plutão: esconder-se por detrás da dor ou fazer uma grande faxina

Entretanto, não é somente nisso que Helena é plutoniana. Ela revela seu passado só sob insistência. Plutonianos se escondem. Não são evidentes. Na medida em que não revela seu passado, Helena também evita ficar vulnerável e precisar de alguém. Trata-se de alguém que esconde a sua parte mal resolvida, negativa, vulnerável, machucada, ao menos do progatonista. Se o protagonista estimula isto ou não (conforme ele mesmo questiona), isto não teria influência, pois temos o perfil de uma personalidade que, na realidade, é mais contida e voltada para dentro do que a princípio pareceria. Pode ser que a ação do protagonista a tenha deixado mais assim, mas pode ser que ela não quisesse mesmo se abrir. Em todo o caso, o protagonista não tentou, ou tentou muito pouco. Foi mais movido por uma necessidade de dominá-la (que ela, como boa plutoniana, pressente) do que realmente de conhecê-la, abraçá-la como pessoa. Ele ama a figura que ele criou para si mesmo, e tudo o que pode retirar dela. Ele a classifica claramente como amante, e não como uma pessoa, uma mulher de quem goste. Ela é uma função na vida dele, e somente ele não se dá conta disso, nem durante, nem depois, a não ser vagamente e de um modo ressentido. Ele tem raiva porque ela desfez este papel como se este papel nunca estivesse existido. No fundo, isto o humilha.

Outro elemento flagrante de Plutão em Helena é a forma como ela intervém na vida do protagonista. Embora a sua atuação seja positiva, auxiliando-o nos negócios e até no casamento, é uma interferência, e Plutão é conhecido por sua profunda necessidade em interferir, de entrar na vida do outro. Em uma pessoa insegura e com baixa auto-estima como o protagonista, a intervenção gera dependência. Tanto que ele perde totalmente o rumo com a partida de Helena. Não é apenas o abandono e a raiva que causam isto, pois, passado o primeiro impacto, o protagonista poderia recuperar sua vida e sua personalidade. Mas não, ele volta para um emprego inferior e começa a ter uma atuação apagada, o que em boa parte é sintoma do ressentimento por ter sido abandonado, mas também é uma inconsciência de seu próprio poder, que ele só podia acessar através da encenação com Helena, do papel de amantes que eles estavam representando juntos. Tornou-se dependente da interferente e fulgurante Helena. Só há algo que ele não percebe: os conselhos que Helena dá são possíveis porque ela não sente nada em sua própria pele. Helena está livre de riscos. Ela não tem nenhuma vinculação com os resultados de seus conselhos, principalmente levando-se em conta que havia dentro dela a possibilidade de partir, que se concretizou. Ou seja, ela pode usar a sua visão sagitariana de um modo livre, incentivado-o a melhorar sua vida, mas sem nenhum compromisso com a parte interna do amante. Tanto é assim que ela o abandona, o descarta. Ela dá dicas para a vida dele, mas, assim como a sua esposa, aparentemente não entra em contato com os sentimentos mais profundos dele, e nem ele com os dela. A mesma superficialidade, não relação, que há em seu casamento há, igualmente, em seu contato com a amante, embora pareça ser o contrário.

Ou seja, Helena era muito plutoniana (embora tenha um pouco de Urano e Sagitário, também). Porém, o retrato que o protagonista pinta dela é excessivo. E neste retrato há também um outro contraste deste planeta. Enquanto o protagonista é demasiadamente humano, sofredor, vulnerável, passional, quase abjeto, Helena é sobre-humana. Estes dois traços, aquele mais abaixo do nível do chão, que não teme se arrastar ou se desagradar, e aquele de sutil elevação e ocultação das próprias fraquezas, vulnerabilidade e defeitos são obras de um mesmo Plutão. São faces opostas de uma mesma moeda.

Os outros elementos de Plutão na história são percebidos através do vocabulário usado. O protagonista diz que nunca esquecerá Helena. Ele também compara sua dor emocional a algo irreparável. De fato, Plutão pode trazer situações deste tipo. Psiquicamente, ele sente que a passagem de Helena por sua vida deixou marcas tão profundas quanto um acidente ou outro acontecimento trágico teria deixado. O fato de ver a si mesmo como um monstro ou um ser deformado é também uma visão da típica deste planeta.

O trânsito de Plutão se mostra, no protagonista, como uma profunda e prolongada dor. Nem todos os trânsitos de Plutão teriam de ter necessariamente este efeito, embora eles sempre impliquem em revisões de conteúdos. Obrigam a que algo seja visto, constatado. Todos eles mexem com conteúdos não resolvidos e solicitam profundidade. E irão doer até que esta profundidade ocorra. “Veja”, é o que dizem. Mexem com o que NÃO queremos ver, mas que sabemos que existe. Um trânsito de Plutão tem uma força centrípeta: enquanto não se olhar para dentro, o externo irá ter cada vez mais desdobramentos fora de controle, como é a situação que o protagonista experimenta. Algo ficará tão evidentemente errado que a pessoa será obrigada a refletir.

Os trânsitos de Plutão, porém, puxam para dentro, mas não obrigam ninguém a realmente ser capaz de toda a profundidade necessária. A pessoa pode ficar na superfície de intensos conflitos, e perderá uma chance preciosa de ir ao âmago de uma questão, de se transformar a partir das dinâmicas trazidas pelo trânsito. A constatação da dor, no caso de Plutão, é o início da cura. E no que se refere ao protagonista, há uma clara recusa a transformação. Sua vida paralisada, o fato de dizer que passa o tempo todo fingindo, que não se sente como as outras pessoas, são sintomas disso, de que seu próprio interior se congelou pelo choque e resiste bravamente a se transformar através dele. Há, nos trânsitos de Plutão, um cabo de guerra que tende a ser travado entre manter uma visão superficial dos acontecimentos e admitir as próprias culpas neles, o próprio eu colaborando para os desdobramentos que surgiram. Isto que Plutão solicita é um supremo sacrifício, que nem todos são capazes de fazer. Em um certo nível, a pessoa tem de dobrar-se, humilhar-se (ainda que perante uma verdade, que é algo impessoal). Porém, aqueles que conseguem fazer isto ganham a força. Em trânsitos de Plutão, aquele que se eleva, cai, e aquele que admite sua submissão, se reergue. Este conhecimento é sabiamente utilizado pelas associações anônimas de cura. Na medida em que se assume inteira e condicionalmente sua fraqueza, submissão, torna-se possível livrar-se do vício. O protagonista, porém, recusa-se a dobrar-se, a ver onde ele mesmo errou. Faz isto com reticências, com dureza, e culpa Helena ao invés de buscar enxergar sua verdadeira face. O modo como vem agindo, como elabora a vida, como lida com o feminino e com o masculino. Seus pecados são mínimos, e sempre justificáveis, em face ao monstro (e ao deus poderoso, também) que ele cria em Helena. Em suma: ele projeta Plutão em Helena. Helena é Plutão, e por isto é tão poderosa, destrutiva e construtiva ao mesmo tempo. Em certo sentido, ela é um aspecto dele mesmo. Pessoas com Plutão forte costumam ter extrema dificuldade em se verem subjugadas, enfraquecidas, perdedoras, humilhadas, talvez porque experimentaram isto à fartura em suas infâncias. Não suportam mais. Só que o fato de resistirem a isto só agrava este ponto de dor, pois em muitos momentos de suas vidas elas se verão presas por seus intensos orgulhos e poderosas obsessões. E muitos momentos irão despertar esta temática de poder, subjugação e intensidade.

A transformação que deveria acontecer ao protagonista, trazendo à tona uma nova pessoa, mais profunda (já que ele mesmo alega que era raso), mais conectada aos próprios sentimentos, entra em curso, mas se interrompe (pois ele prefere culpar Helena e ser atormentado por esta Helena fantasmagórica), e, com isto, o deforma. O protagonista fica a meio caminho entre a lagarta e a borboleta, não sendo mais nenhuma coisa, nem outra, e, em várias passagens é visível a sua profunda crise de identidade. Ele não consegue mais ser o homem velho, mas tampouco é um homem novo. Se apenas se abandonasse a dor, e se abrisse aos seus próprios erros, tendo a coragem de se examinar e a sua vida (ele faz isto em grau muito inferior ao que utiliza para atacar Helena), ele viveria uma enorme e profunda crise de culpa, mas a transformação plutoniana começaria naturalmente a acontecer, pois ele estaria focalizando a si mesmo. Plutão ou transforma ou endurece. Alguns distorcem ainda mais a si mesmos a partir de trânsitos de Plutão, porque não querem aprender, ver, fazer uma limpeza em suas vidas, desnudar-se, aprofundar suas motivações. Ou seja, recusam-se à grande faxina plutoniana.

Perda e Abandono

O abandono, a perda, são temas comuns deste trânsito. O problema é que o protagonista não consegue ir além deste abandono, e sente todas as pontadas plutonianas da agressividade (dirigida a Helena e também a si mesmo), compulsão e prisão emocional. Viciou-se em Helena e sente-se privado dela como se ela tivesse sido um entorpecente em sua vida. Este efeito de vício também é um sintoma comum a trânsitos de Plutão, ou a relacionamentos em que Plutão é forte. A pessoa tem de lutar intensamente contra si própria para vencer o vício. E esta luta só pode ser feita quando ela mesma se provê de altas doses de consciência. em especial em relação aos limites dolorosos de sua impotência e dependência. Ela precisa saber o quanto ela está disposta a se sacrificar para sair do labirinto. Ver a vida como ela é, e não como ela gostaria que fosse. Porém, enquanto ela estiver no emaranhado e não tiver sofrido o suficiente para DESEJAR estar consciente, não há possibilidade de cura. É a exaustão emocional, que muitas vezes demora a acontecer, que vai conduzir o indivíduo a tentar buscar o esclarecimento.

Ainda a respeito da questão da transformação que ficou pela metade, o protagonista faz referências a pessoa que era no passado. Fala que era tão profundo quanto um pires. Ele não nota que o trânsito de Plutão (ou a passagem de Helena, como queira) alargou-o por dentro. Independente da dor que trouxe, ele, como pessoa, ficou maior, melhor, mais profundo. Os trânsitos de Plutão muitas vezes trazem ganhos disfarçados de perdas. Muitas vezes, levam-se anos para se perceber isto. O ressentimento, os sentimentos feridos, impedem que o ganho seja visto. A pessoa também tem raiva do ganho, que para ela é perda, por isto não o admite, o esconde, como o protagonista faz flagrantemente neste conto. Para ele, Helena, embora tenha trazido coisas maravilhosas, foi algo ruim em sua vida. É o que ele diz já no primeiro parágrafo, quando compara Helena a um acidente. A recusa em ver algo de bom no que aconteceu mostra o quanto ainda está preso a dor e à própria intensidade de seus sentimentos. Ele não consegue perdoar Helena, e, no fundo, a si mesmo.

Para o protagonista, o trânsito de Plutão vem somente para destruir, aniquilar, e não para transformar. ELE não escolheu isto. Enquanto estiver preso ao ressentimento e à temática Helena, em que sequer o próprio nome dele tem importância, não conseguirá modificar nada em sua vida. Será um mero reagente, como tem sido. Enquanto achar que foi Helena quem fez isto ou aquilo, não conseguirá entender que Helena foi apenas quem detonou um processo psíquico dentro dele. Não tomará posse da sua vida. Na realidade, se ele foi vulnerável a uma tempestade como esta, é porque já não estava de posse da sua vida, em um sentido de conhecer seus sentimentos, sua essência e suas motivações.

Qualquer trânsito de Plutão tem o efeito de desnudar. Através de Helena, metáfora para o trânsito de Plutão, ele conheceu aspectos de si mesmo, e também de sua esposa, de sua vida. Entretanto, ele dirige o foco deste desnudamento para Helena, algo comum entre os plutonianos ou durante o trânsito de Plutão. Assim, tenta destruí-la e desviar-se da tarefa da faxina que é descobrir que ele andou fazendo de errado ou, pelo menos, não produtivo.

Como boa plutoniana, Helena não se deixou desnudar, terminou como um enigma, abandonou-o. Só que ao invés de o protagonista perguntar POR QUE Helena fez isto, ou quem ela era, ele teria de se perguntar porque ELE aceitou uma relação unilateral, em que Helena era a fonte geradora (e pessoas com Plutão forte freqüentemente se colocam nesta posição), em que ele se meteu em uma armadilha de apenas receber. Ou seja, quem ELE era e o que ele estava fazendo. É preciso que ele veja o que deu e o que recebeu, onde ele também não foi nobre ou honesto e aceitou este pacto, e o que este pacto envolvia.

Utilizando uma imagem, é como se o protagonista tivesse se envolvido com um agiota que lhe abrisse as portas, mas depois o espoliasse, o submetesse, o humilhasse. A partida de Helena teve este efeito, e ele culpou o agiota, mas não a si mesmo, ao seu próprio comportamento. Fica claro que ele enxerga Helena como um acidente. Mas ele não vê que algo dentro dele permitiu que este acidente acontecesse, e que talvez Helena tenha partido porque ele apenas retirou e não deu.

Talvez ela o tenha deixado porque a concepção que ele tenha de relacionamentos seja muito pobre ou tenha algum problema. Talvez ela o tivesse abandonado de qualquer forma, por ser tão incapaz de se relacionar quanto ele. Talvez não. Ele mesmo não lembra, não quer lembrar ou não prestou atenção a este tipo de sinal. Ele não faz este tipo de “mea culpa”. Queria ter Helena até o fim. Ela tinha de estar à disposição dele. De um certo modo, inconscientemente, ele queria se vingar da raiva da esposa na amante, e Helena não permitiu isto, pois não assumiu a condição de amante. Ao não fazer isto, ela inverteu o jogo, algo também pertence a temática plutoniana. Viradas, armadilhas, rasteiras, inversões são típicas deste planeta. Quanto a Helena, ou ela não queria nada desta relação, ou queria mas foi incapaz de comunicar, aprisionada em seu próprio mundo tanto quanto o protagonista. Estes enganos, estas coisas não ditas, esta distância entre duas pessoas também são temas de relações marcadas por Plutão. São relações de abismo, de profundos silêncios, equívocos, mas tudo isto em um cenário de muita intensidade. Em que, não raro, cada um pode estar apenas se relacionando consigo mesmo, como parece ser o caso de Helena e do protagonista.

Nas entrelinhas do texto, fica claro que o protagonista se relaciona mal. Não consegue, ao menos não naquele momento, entrar em contato com a esposa. Quando Helena o abandona, e ele descobre a traição potencial (Plutão, novamente) da mulher, ambos não conseguem vivenciar a dor que isto significou e apenas se separam, civilizadamente, uma negação do deus do submundo, Plutão. Mas acabam com os restos psíquicos disso. Talvez a ex-esposa tenha de se haver com Plutão em algum momento da vida, mas aquela seria a hora dele. E ele não o fez. Ficou obcecado por Helena, e não questionou quem ele era e quem queria ser. Aquele teria de ter sido o tempo para uma grande revisão, para o surgimento de uma nova pessoa. Mas Plutão só entrega suas dádivas quando a pessoa se permite enxergar a verdade. E, no caso do protagonista, uma das verdades era que, enquanto Helena se comportou como uma fonte geradora, e não teve nada que tirar da relação (o poder, tão cobiçado por Plutão, ficou com ela), o protagonista se comportou como um verdadeiro vampiro, outro comportamento típico deste intenso e pequeno planeta. Ao encontrar Helena mãe, Helena lunar, Helena sempre acolhedora, achou que poderia sugá-la sempre que desejasse, sem se interessar por ela. Que bastava apenas retirar, em um comportamento predador comum a Plutão. Apaixonado por uma Helena mítica, deixou de lado a pessoa real. Plutão, muitas vezes, atua com uma falta de respeito, de sem cerimônia. Relações plutonianas passam por fases e momentos assim, de destruição, de abuso, de desrespeito, de ultrapassagem de limites. A segunda verdade que o protagonista não quis ver é que ele esperava de Helena um comportamento de amante sôfrega que ela nunca teve. Quem era sôfrego era ele. Achou, inclusive, que podia ter a petulância de tirar férias com a esposa e acreditar que estaria tudo bem para Helena (e talvez Helena tenha, de fato, contribuído para que ele acreditasse nisso, sabe-se lá por que razões), e que ela estaria esperando. Ou seja, viu em Helena a figura de uma amante dócil, submissa e apaixonada que ela jamais foi. Ter constatado esta verdade foi o maior golpe em seu ego que ele poderia ter recebido.

Quando a mão nutridora e sempre presente se foi, este homem, tão interessado no sucesso externo e na sua imagem, que era uma forma de esconder sua angústia e sentimento de inferioridade, desmoronou, como uma criança. Novamente, o déficit lunar se fez presente. Este trânsito deveria ser o ponto de partida para o protagonista trabalhar sua fragilidade, vulnerabilidade, carência, seu feminino mal resolvido, já que teve problemas com duas mulheres. Mas não. Provavelmente, quando o efeito do trânsito passar, alguma coisa ele terá se transformado, pois ele jamais poderá se relacionar de forma diferente depois de Helena (ou de Plutão), mas ele terá perdido a oportunidade de ressurgir como outra pessoa de fato. De revisar mais a si mesmo. De remover outros detritos. De encarar problemas que continuarão a repercutir na sua vida.

Podemos especular que tipo de transformação o protagonista sofrerá: ele poderá a aprender a ser como a mulher que o magoou. Muitos homens (e mulheres) ao encontrarem suas Helenas, seguem por este caminho. Jamais voltarão a ficar vulneráveis, jamais mergulharão novamente na insensatez, que tanto os castigou. Aprenderão a controlar a si mesmos e a outra pessoa. Aprenderão a se disfarçar, a manipular. Viverão o amor somente até certo limite. Poderão aprender a ser pretensamente mais fortes, auto-suficientes, mas de vez em quando se verão na beira do abismo das emoções. E, dependendo do quão longe forem neste extremo do controle, suas vidas serão congeladas, refletindo a rigidez interior que os habita. Alguns aprenderão a forjar uma imagem melhor de si mesmos, coisa que o próprio protagonista parece estar fazendo, na medida em que se classifica como uma farsa, como algo montado. Aprenderão a se proteger de maneira a nunca mais serem apanhados por nenhuma outra Helena. Só há um detalhe: o demônio que eles tanto odeiam ocupa o mesmo espaço que o anjo, e eles terão de renunciar também ao anjo, ou seja, a delicadeza, sinceridade, a uma dose de vulnerabilidade, de entrega, de inocência e até de amor, para fazerem tudo isto. Esta temática, de vender a alma ao diabo, é profundamente plutoniana. O próprio nome diz: vende-se o melhor de si mesmo para se transformar em uma pessoa morta, rígida, congelada, resistente. Plutão, utilizado negativamente, pode congelar a vida. Eventuais momentos de abertura serão apenas isto: momentos, até que se recobre o controle, e se feche a torneira. Ou seja, se o protagonista entrasse em contato com a própria vulnerabilidade poderia reconstruir a si mesmo e a sua capacidade de amar quem sabe em um meio termo entre a entrega e o controle absolutos. Entretanto, como se recusa a se abrir para uma visão diferente dos fatos (talvez para a verdade a respeito de si mesmo), a se reelaborar, a aprender a se enxergar através da dor, ao invés de Plutão limpar alguns conteúdos, irá encapsular outros, até que, talvez um dia, irá se arrepender do não vivido, do excessivamente contido, do não dado, do não transformado, do não realizado. Tal como Helena, que ele tanto odiou e amou.

1 comentário sobre “Uma Crise Abissal: um conto sobre os trânsitos de Plutão”

Esse conto está com uma ótima interpretação, está bem claro sobre o funcionamento de Plutão.

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