Plutão, Escorpião e o Conde de Monte Cristo

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Ao escrever O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas criou uma das obras mais conhecidas da literatura mundial. E não é para menos: na história do jovem oficial condenado por um crime que não cometeu pulsa toda a intensidade de Plutão e de seus inescapáveis mecanismos transformadores.

Pelo menos três obras do escritor Alexandre Dumas foram adaptadas ao cinema: Os Três Mosqueteiros, A Rainha Margot e O Conde de Monte Cristo. Este artigo se concentra na última e na sua versão cinematográfica de 2002, ligeiramente diferente da do livro, mas ainda fiel a sua essência. A opção pela versão do cinema é porque a reinterpretarão de obras funciona como uma tradução da mesma para o público contemporâneo. Isto não quer dizer que histórias escritas há mais de um século sejam perecíveis, mas sim que a alteração de certos detalhes pode fazer com que o público atual possa se identificar mais com elas, e, com isto, haver maior penetração do conteúdo.

Cartaz do filme de 2002
Cartaz do filme de 2002

Astrologicamente, O Conde de Monte Cristo está fortemente baseado em Plutão, Escorpião e na casa oito, respectivamente planeta, signo e casa ligados a um princípio semelhante. Plutão representa o processo de transformação, Escorpião é o sujeito que transforma e se transforma e a casa oito é a forma pela qual a transformação acontece (exemplo: através de fatores amorosos, coletivos, de uma perda, etc).

Para simplificar, vamos resumir todos estes princípios em um só, atribuindo todos a Plutão. Plutão, portanto, será chamado de processo de transformação e de tudo o que faz parte dele, como os sujeitos transformadores. Estes, por sua vez, serão divididos entre Plutão positivo ou negativo, de acordo com os papéis que desempenharem. Plutão também será identificado como o poder, as artimanhas, mas também com a força regeneradora. Misturamos propositalmente estes conceitos pelo fato de que eles serão tão fartos na história que classificar o que seria planeta, signo, características humanas e processos impessoais seria exaustivo e não levaria a um maior esclarecimento. O importante, bem à moda de Plutão, é entender a essência e ser capaz de se enxergar como o protagonista de “O Conde de Monte Cristo”.

Por que “O Conde de Monte Cristo” é plutoniano

A história do oficial da marinha Edmond Dantès está baseada em questões ligadas às temáticas dos princípios de Plutão: traição, injustiça, perda da inocência, perdas concretas, morte real e simbólica, renascimento, vingança e resgate.

No início do filme, é dada uma chance ao espectador de apreciar as qualidades do oficial da marinha Edmond Dantès, nosso herói, futuro conde. Edmond é competente, corajoso, faz o que precisa ser feito, é bom amigo, belo, vigoroso, sincero e apaixonado por sua noiva Mercedes. Tudo perfeito. Em meio a tudo isto, porém, Edmond tem apenas um grave defeito, capaz de colocar em risco todas as suas boas qualidades: é ingênuo. O protagonista é puro não só no sentido de nunca ter sido corrompido, mas de nunca tê-lo sequer imaginado ou cogitado. Suas qualidades tão elevadas o isolam do elemento humano da maldade, inveja e interesses. Edmond parece desconhecer completamente a existência de um lado negro nas pessoas. Tal comportamento é patente em três situações:

=> Confia cegamente em seu amigo, o filho do conde Mondego, sem jamais perceber que, além de invejá-lo, ele cobiça a sua noiva.

=> Não percebe a si mesmo como uma ameaça para seu superior imediato, o primeiro imediato Danglars. No mundo de Edmond, o lugar que se conquista depende dos próprios méritos, e não de ardis, alianças e da capacidade de manter uma posição.

=> Tem uma empatia natural com as pessoas, a ponto de não perceber que um político experiente como Napoleão Bonaparte, em uma situação de exílio, tentaria empregar todos os meios para mudar sua própria situação, incluindo usar as pessoas. Napoleão fará isto com Edmond ao dizer que precisa que uma carta de conteúdo somente sentimental chegue a um velho amigo. Como Edmond não tem a maldade dentro de si, não pode conhecê-la no outro, e, assim, acredita em Bonaparte. Vale o que as pessoas dizem.

Um ponto importante a ser compreendido na história de um ingênuo marinheiro que se transforma em vingador é que Edmond é naturalmente bom e honrado, mas não é um santo, pois os santos conhecem profundamente os pecados daqueles que os circundam e mesmo assim os amam. Edmond vive em um mundo sem pecados, sem maus sentimentos e sem tramas. Um mundo afetuoso e simples. Em certa medida, um mundo taurino, do qual ele será dramaticamente retirado. É esta, digamos assim, a aberração que caracteriza Edmond, e que, igualmente, faz parte do seu encanto.

Nenhuma de suas boas qualidades, porém, será capaz de impedir a força com que a ausência deste componente plutoniano – o conhecimento da maldade ou daquilo que está oculto – irá arrastá-lo para o abismo, testando quem ele verdadeiramente é. Inclusive, se é bom ou não, e até que ponto. Plutão tem por função desmascarar. Mostrar como as coisas são é a única maneira de revelar forças e fraquezas, e, junto com elas, os nossos potenciais e a nossa verdadeira natureza. A lei da vida, portanto, irá obrigá-lo a conhecer tudo isto, como faz a cada um de nós. Há alguém que esteja livre de enxergar ou experimentar a maldade e as vilanias? Por que Edmond ficaria incólume? O único problema é que ele irá conhecer tudo isto de uma vez só. Não é incomum que Plutão represente o choque de se deparar com um porão de cuja existência nunca se soube. Vê-lo fará com que nada jamais volte a ser igual. Plutão é, portanto, o planeta ‘anti-inocência’, que é o aspecto mais evidente em Edmond Dantès. Plutão é como um pai rico e desconhecido, que surge do nada para testar se o seu filho é merecedor da imensa fortuna que tem a legar.

Carniça para corvos: a inocência para os ardilosos

Edmond está cercado do que chamaríamos de plutonianos ‘negativos’, isto é, pessoas tomadas por suas paixões, a ponto de serem implacáveis com os outros. Todos os inimigos de Edmond não têm nenhuma piedade por ele, a começar por Napoleão. Qualquer mortal encontraria motivos para desconfiar do ex-general que dominou a França e foi exilado, mas o carismático Napoleão Bonaparte (ninguém chega ao poder sem uma boa dose de carisma, o que tem a ver com Plutão) tira a sorte grande ao se deparar com Dantès. Seria apenas sorte? Certamente, não. Se Edmond não exercita o conhecimento humano, é bom que se diga que os plutonianos – negativos ou positivos – sim. Fazem isto o tempo todo. Estão sempre querendo descobrir como as pessoas funcionam, quais são seus mecanismos. Todos eles possuem sofisticadíssimos sistemas de detecção psicológica. O que diferencia um plutoniano positivo de um negativo é somente a forma como usa este poder. O negativo praticamente vive de explorar seu vasto conhecimento do ser humano, posto que só esteja interessado em obter vantagens para si mesmo. Para o plutoniano negativo indivíduos ingênuos e desarmados como Edmond são um banquete, pois é preciso menos tempo e trabalho para enganá-los. Napoleão, portanto, reconhece em Dantès o tipo que pode ser ludibriado. Os valores de Dantès são tão transparentes, e ele é tão crente na bondade das figuras de autoridade, que não é difícil persuadi-lo.

Aqui temos o primeiríssimo aviso de Plutão. A menos que você não ligue para o que possam fazer de você, sendo um santo ou uma pessoa iluminada, não ande tão desprevenido: assuma minimamente que é preciso ter uma certa precaução com as pessoas.

Fernand: o falso amigo de Dantès

Mondego e o Futuro Conde de Montecristo
O arrogante Mondego e o então ingênuo futuro Conde de Montecristo

Fernand Mondego é filho de conde. E, no entanto, anda com o simples Edmond Dantès. Por quê? Identificação, bons sentimentos, capacidade de fazer escolhas que transcendem classe social e aparência? Poderia ser. Porém, infelizmente, nada disso, em se tratando de Fernand. O filho dos Mondego recebeu tudo – educação, conforto, posição – e aparentemente nunca teve de fazer nenhum esforço, ao contrário de Edmond, que teve de conquistar tudo. Edmond ascende por seus próprios méritos e é alvo da paixão da bela Mercedes, de origem humilde como ele. Edmond brilha sem querer brilhar. Nada mais irritante para um menino mimado e sem méritos próprios, como Fernand. E a riqueza de Mondego não consegue emocionar Mercedes. Quando seu amigo fica feliz com o novo posto de capitão, a inveja que já existia em Fernand atinge um ponto insuportável. Plutão rege o que fica oculto e um dia emerge.

Fernand, porém, tem suas travas morais, e precisa de um motivo para voltar-se contra seu amigo. Quando este não lhe conta ser portador de uma carta de Napoleão (pois prometeu isto ao general), Fernand tem a primeira justificativa para se sentir traído. É algo plutoniano arranjar falsos motivos para destruir o que incomoda. E é mais plutoniano ainda que certos impulsos precisem de companhia para serem realizados. Plutão rege os companheiros de conluio, aqueles que somam força. Para Mondego, este companheiro será Danglars, que, com muito despeito, se torna subordinado daquele que antes chefiava, o novo capitão Edmond Dantès.

Antes de seguirmos, é preciso atentar para outro detalhe no mínimo intrigante: Fernand descobre que o amigo é portador de uma carta ao desconfiar do comportamento dele depois da conversa privada com Napoleão. Mexe nas coisas de Edmond e encontra a tal carta. Ou seja, ele, Fernand, pode desconfiar à vontade de Edmond e até mexer nas suas coisas, mas não permite que Edmond sequer sonhe em fazer a mesma coisa. O plutoniano distorcido tem delírios de se achar a única pessoa correta. E não suporta ser passado para trás. Diante da menor suspeita, faz isto antes. Este impulso automático, compulsivo, é altamente destrutivo. A pessoa é guiada como que por uma força cega. Ainda que não gostemos de Fernand, e que isto não justifique suas atitudes, o que ele trama é fruto de um momento típico de descompensação e reação automática.

A amizade de Edmond e Fernand está baseada na extrema diferença entre os dois. Enquanto Edmond não sabe nada sobre o mundo, Fernand está farto de saber como funciona. Inclusive, chega a avisar o amigo de que não será sempre bom. Se são amigos, e tão diferentes entre si, é como se o inconsciente de um precisasse desesperadamente do que o outro tivesse a oferecer. Fernand não pode ser naturalmente nobre e bom, enquanto a Edmond não é permitido assumir força e poder, tem de ser sempre humilde. Uma das funções de Plutão parece ser a de acabar com papéis rígidos e com o que aprisiona a personalidade. Em algum nível, Edmond precisa de Plutão para alcançar seu poder, e, com isto, suas potencialidades.

O auge como o início da derrocada

Todos sabem da associação entre poder e complexidade. Não será diferente para Edmond: quando é agraciado com o posto de capitão, seus problemas começam. Seu jeito simplório era para uma vida igualmente simplória. Não para cargos de chefia e nem para se casar com mulheres bonitas demais. Para tudo isto, teria de haver mais ambição, e, com ela, a astúcia.

Ser capitão é algo muito importante na vida do jovem Edmond. Permitirá que ganhe melhor e finalmente possa pagar o dote de sua amada, podendo casar-se com ela. É esta feliz notícia que Edmond vai dar a Mercedes e ao amigo, que acaba de ser refutado pela moça. Aqui novamente entram em cena os elementos plutonianos. Como o jovem capitão desconhece por completo os sentimentos do amigo, conta-lhe abertamente a novidade, demonstra toda a sua felicidade, abraça Mercedes. Lembremos que Plutão não costuma ser aberto. É preciso estar na sombra para observar.

Em sua alegria, Edmond não vai a fundo no fato de que Mondego lhe é muito pouco receptivo. Edmond não está acostumado a ir a fundo. Cabe perguntar se Mondego não lhe mostrou muitas vezes qual era a sua natureza. Edmond registra algo estranho na reação do amigo, mas não tem subsídios e vivência para entender, pois nunca concebeu que Mondego, rico, nobre e privilegiado, pudesse ter qualquer sentimento negativo em relação a ele. Muito menos inveja. Nunca percebeu, também, que Mondego cobiçava Mercedes. É como se estivesse desligado de suas reações viscerais.

Mondego não é plutoniano somente na sua riqueza (regida por este planeta), mas também na habilidade com que esconde suas vulnerabilidades. Ninguém é tão hábil em parecer forte e invulnerável quanto os plutonianos. Transmitem a impressão de segurança e de estarem bem resolvidos. Curiosamente, no futuro, Dantès, já como o Conde de Monte Cristo, será capaz de fazer o mesmo que o amigo.

Mondego trama a derrocada de Edmond com Danglars. Ambos denunciam o novo capitão como inimigo da pátria, portador de uma carta de Napoleão. O atônito Dantès é levado para responder a interrogatório diante do promotor Villefort. Villefort é um ‘Plutão ameno’. Não tem nenhum motivo especial para detestar Dantès, e percebe imediatamente a ingenuidade do rapaz. Está a ponto de liberá-lo, até que pergunta para quem era a carta. O nome citado é o do pai de Villefort. O ambicioso promotor pode pedir a Edmond Dantès que nunca mencione o nome, mas é característica de Plutão não confiar em ninguém. Não tem outra alternativa senão a de prender e exilar arbitrariamente o marinheiro. Faz isto sem nenhuma dor de consciência, pois para ele Dantès é como um pequeno animal que se pode escolher deixar viver se não incomodar, mas eliminar sem hesitação se for necessário.

O exílio

Dantés preso
Dantés preso

Edmond é exilado em uma ilha. Não tem direito a comunicação e julgamento, porque traiu a França. Plutão rege o inegociável. Começa o calvário plutoniano de Edmond Dantès, o qual independe de quem ele é, de ele estar certo ou errado. Isto é Plutão, porque este planeta não atua segundo a lógica que conhecemos. Ele tem outra: seu objetivo é transformar as pessoas. O que é sentido como perda a curto prazo dilui-se em um esquema de longo prazo no qual um planeta transpessoal trabalha.

De um só golpe e inesperadamente Edmond perde tudo: o posto recém-conquistado, a mulher amada, a amizade que imaginava ter e a perspectiva de um futuro. Também boa parte de sua juventude. Ele é isolado em uma ilha, onde será mantido preso por longos anos. Plutão rege os lugares inóspitos pelos quais todos nós alguma vez já passamos. É o inferno de cada um.

Edmond, que era correto e honesto, e sonhava com um futuro simples ao lado de sua amada, passa pela maior provação humana: o isolamento e o esquecimento. A escuridão de algo que não se sabe se irá acabar. É lançado ao calabouço da décima-segunda casa zodiacal, a das prisões e do exílio. Um limbo onde só se existe para si mesmo, muito solitário. Um lugar onde é muito fácil enlouquecer. Edmond sofre um pesado castigo para um rapaz jovem, vigoroso, que tinha o mar por horizonte. Está em um mundo sombrio e sem forma e inteiramente à mercê dos outros, para se alimentar e não ser torturado além do limite. Não há absolutamente nada para distrair ou fazer. Cada aniversário é comemorado pelo diretor da prisão, um outro espécime negativo de Plutão, com chibatadas.

No início, o temente Edmond agarra-se a sua fé. Está inscrito na parede da prisão que Deus fará justiça aos seus. Edmond acredita. Mas os anos desgastam suas convicções, a sua identidade e, finalmente, a ingenuidade responsável pelo que ele estava sofrendo, e que era seu traço mais encantador e marcante. O que irá sobrar de sua essência deste processo? O que restará de Edmond? Ele passa por um fantástico processo de transformação. Não pode alegrar-se por isto porque este processo lhe custa a quase totalidade de suas forças, crenças, sanidade e sentimentos. Alguém pode conceber castigo pior do que estar em uma prisão sem perspectiva alguma de futuro? Sem nenhuma possibilidade de intervenção do mundo externo? Anos e anos a fio?

Edmond passa 13 anos neste inferno, meio ciclo de Saturno. Perde os melhores anos de sua juventude. Entra em desconexão total com a vida que anteriormente conhecia. Aquilo, porém, que ele concebe que seja um inferno em parte contém uma benção. Para transformar, Plutão precisa matar o passado, e a morte deste passado será integral. Já dissemos no início do artigo que Edmond era bom por natureza, mas não por real entendimento. Faltava uma peça em seu psiquismo. Ele não faria mal a ninguém se continuasse como era, mas a transformação nos prepara para ser melhores do que somos, para fazermos mais do que faríamos, darmos mais do que originalmente daríamos. A todos aqueles que Plutão joga no exílio e no desterro premia com grandes doses de poder e sabedoria. Mas humanamente é muito difícil entender seus processos.

O encontro com o abade: o início da virada

O hemiciclo de Saturno, 14 anos, tempo aproximado do exílio de Edmond, remete profundamente à sétima casa, do encontro do outro, que está na metade da jornada. Isto revela que o outro é a grande temática da vida de Edmond: antes, durante e depois da prisão. É o outro quem lança Edmond ao isolamento, mas será também o outro quem irá tirá-lo de lá. Quando Edmond está quase perdendo o juízo e morrendo, eis que surge um padre em sua cela. O abade Faria passou anos cavando e cavou para o lugar ‘errado’. Ao invés de se sentir deprimido, solicita a Edmond que o ajude. Em troca, ensinará tudo o que sabe: ciências, idiomas, habilidades.

O encontro com o abade (à direita), portanto, é um ponto-chave tanto quanto o momento do seu exílio. É o padre exilado quem dá a esperança de sair da terrível masmorra. Ocorre, também, uma fantástica transferência de conhecimento e experiência. Tradicionalmente, a oitava casa está ligada ao que se pode receber dos outros. Pessoas com planetas importantes ali atraem benefícios. Mas estes muitas vezes não são colhidos em meio a calmarias. A oitava casa não é uma casa de calmarias. Pessoas que passam por eventos traumáticos, ligados à oitava casa, têm grande chance de encontrar alguém que possa exercer um papel poderoso de catalisador de transformações. Alguém que lhes transfere sua sabedoria. A mão que tirará a pessoa do fosso em que se encontra. O abade é tão importante na vida de Edmond que, ainda por cima, lhe deixará um tesouro! Simbolismo mais forte do poder positivo Plutão não existe. O ingênuo Edmond de outrora jamais teria acesso ao tesouro se não tivesse passado pela prisão e conhecido o padre. Isto deixa lições profundas a respeito da importância dos momentos de crise, tão difíceis de serem enfrentados.

O processo de transformação de Edmond é, em parte, aquele que ocorre dentro dele mesmo, em que ele se despe completamente da pessoa que era. Plutão é esvaziamento. O que acontece a Edmond torna simplesmente impossível que ele continue a ser quem era. Porém, o esvaziamento também pode levar à amargura e autodestruição. É, portanto, o abade quem veste o ser humano nu e cru que surge do confronto com a dor e a desesperança. Tudo o que Edmond perdeu pelas mãos de outros recebe regiamente do abade, porém – ironia das ironias – não é capaz de enxergar isto. Plutão rege aquilo que se recompõe de diferentes formas. Temos imensa dificuldade em percebermos o que chega de bom depois de momentos ruins. E sempre vem algo. Às vezes, chegamos a desdenhar dos presentes porque pensamos não serem aquilo que queremos. Pode ser que só mais tarde sejam agradecidos.

A saída da prisão

Será, simbolicamente, com as vestimentas do abade que Edmond ingressará novamente no mundo. O ‘novo Edmond’ será uma fusão do que ele mesmo fez de si com tudo aquilo que herdou do abade Faria: conhecimento, refinamento, cultura e a própria riqueza. O padre implora a Edmond que use a riqueza para o bem, mas Edmond diz que só consegue ter motivação para viver e lutar a partir da vingança que planeja. Esta é a mudança mais dramática do herói, que passa da ingenuidade para aquele que trama. Substitui seu raciocínio simples por raciocínios elaborados e estratégicos. É como se, antes da prisão, exercesse o Marte de Áries, como força física, bravura e juventude. Depois, será o Marte de Escorpião, que é tão voltado para a ação quanto o Marte de Áries, mas que escolhe como e quando agir. O Edmond que foge da prisão é um híbrido entre o que ainda restou de sua boa natureza, do que o abade lhe legou e do que seus inimigos lhe fizeram.

A prisão, ligada à casa doze, não precisa ser somente inferno. Pode ser também a gestação – muitas vezes longa – de um renascimento, uma temática plutoniana por excelência. Eis uma das mais belas mensagens a refletir a natureza lapidadora e transformadora de Plutão: é preciso ter paciência (Touro, signo oposto a Escorpião, que é regido por Plutão) para se regenerar. A forma anterior (Touro) foi destruída (Escorpião), não poderá jamais ser recuperada, mas a essência forçará a passagem a fim de refazer caminhos. Ainda que a perda tenha sido profunda, a natureza está se organizando para restaurar o que foi perdido. Se isto não fosse verdade, Edmond não encontraria o abade. A inscrição na parede da prisão já dizia a Edmond a única coisa que ele precisava saber enquanto estivesse lá. Parece ter sido escrita para Edmond, mas, como nós, o herói nega as coincidências que lhe acontecem e as pistas que recebe.

Como a doze é uma casa de não ação, justamente o exílio, nela só é possível conviver consigo mesmo, e o ódio de Edmond cresce, mas também sua agilidade, conhecimento e astúcia. Edmond talvez nunca mais saia da prisão, mas se sair será outra pessoa. Restará somente o essencial da anterior. Ironicamente, força tão destrutiva como a vingança é capaz de lhe dar tenacidade semelhante à fé. O desejo de renascer embute tanto um amor à vida quanto um revide secreto ao que tentou destruir a pessoa (‘você verá quem eu sou’).

Com a morte do abade – Plutão rege a morte – Edmond aproveita a única ocasião que teria para fugir, ocupando o corpo do abade no saco que será lançado ao mar. Chama a atenção que não tenha mais nenhum medo, nem mesmo o de morrer.

Antes de cair, Edmond puxa para baixo o cruel chefe de prisão, aquele que o presenteava com chibatadas a cada aniversário. É curioso que consiga realizar a primeira vingança no instante exato em que tenha possibilidade disso. Em parte, é um sinal de fluxo de vida de Plutão, de que as coisas começaram a mudar. Porém, o simbolismo da queda no mar também mostra o quanto Edmond ainda terá de lutar para chegar à superfície.

A lenta readaptação ao mundo

Começa a segunda fase de Edmond, a de procurar o tesouro. Ele também tem de se adaptar ao mundo do qual esteve tanto tempo distante. Depois das duras provações interiores, enfrentar os desafios do mundo lhe é relativamente fácil. Pela primeira vez na vida ele se comporta de forma realmente segura. Passou por coisas muito piores do que a que irá encontrar lá fora.

O hemiciclo de Saturno é suficiente para transformar uma pessoa, e também endurecê-la. E dar uma segurança que o rapaz não tinha. A marca impressa por Saturno aparece no nome que o protagonista irá adotar depois que encontrar o tesouro: conde de Monte Cristo. Montes e montanhas são regidas por Saturno. Cristo é o avatar da Era de Peixes, e Edmond tinha muito deste signo quando moço. Era marinheiro (Peixes rege o mar), ingênuo e foi sacrificado. Porém, renasce como escorpiano. Realiza este signo conhecendo profundamente as fraquezas daqueles que não viram nenhum valor na sua vida. Teve longos anos para pensar neles e, no seu retorno, tem a vantagem de ser um ‘homem morto’ e ter todo o tempo do mundo para observar. Depois de tantos anos, seu ex-amigo agora é conde e Edmond também descobre com amargura que Mercedes se casou com ele apenas um mês depois de sua prisão. Com certeza, mais um golpe.

O Conde com seu amigo pirata (à esquerda)
O Conde com seu amigo pirata (à esquerda)

Porém, um pouco do antigo Edmond ainda sobrevive nele, ainda que ele não saiba. No filme, Edmond, agora hábil com espada (antes não o era, assim como também não com a sua agressividade, que é o que a espada representa) tem a oportunidade de matar um pirata que traiu o seu bando e tomar o seu lugar no bando. Edmond, porém, não vê motivos para sacrificar o pirata. Ou seja, não é capaz de ser um executor frio, como os seus inimigos o foram. Ao salvar o pirata, Edmond ganha-lhe a lealdade eterna. Criaturas escorpianas terão sempre um taurino (signo oposto) leal a zelar por sua segurança e bem-estar, e será o caso do pirata com quem Dantès passará a fazer parceria (foto). Há, porém, uma diferença na confiança que Dantès tem em relação ao amigo e na que tinha antigamente nas pessoas. A anterior era gratuita. Todos eram bons. A atual decorre do conhecimento do ser humano, adquirido depois das duras provas pelas quais passou. Edmond salvou a vida do pirata e este prometeu devotar a vida ao seu salvador. Assim, é o seu companheiro de jornada na busca pelo tesouro e na estréia como Conde de Monte Cristo.

Finalmente, o Conde de Monte Cristo

Chega o espetacular momento de renascimento de Edmond. Pode reaparecer como outra pessoa porque o é de fato: física, emocional, cultural e mentalmente. Nos tempos de hoje, seria como ter passado por uma operação plástica completa, somada a uma reformulação mental, cultural e psicológica. O Edmond marinheiro era ignorante e ninguém mais quer lembrar dele, por diferentes motivos. Nenhuma possibilidade de retornar rico e seguro de si, e dominando comportamentos que nunca pertenceram ao seu universo. Ainda mais naquele tempo, de mobilidade social quase zero. Assim, Edmond pode agir livremente, sem enfrentar suspeitas.

Conhecer o inferno é tão plutoniano quanto privar da riqueza e deter poder, e Edmond vai aos dois extremos. É também plutoniano conhecer o universo taurino de quais valores são aceitos, assimilados e qual é a moeda de troca em cada ambiente. O conde torna-se um prestidigitador disso, dominando o refinado mundo como se tivesse nascido nele. Sabe que impressiona. Em lugar dos gestos espontâneos e verdadeiros do jovem que foi, passa a ter o domínio da estratégia e do jogo de cena, com seus comedimentos e manobras. Nenhuma frase dita ao acaso: todas como um recado. Nenhum gesto gratuito: o ‘ponto com nó’ tipicamente plutoniano.

No seu retorno, o antigo Edmond aparece naquele que recompensa os que o ajudaram. Mas também não se abstém de castigar os que o prejudicaram. Foi muito duro o que lhe aconteceu. As perdas foram irreparáveis: o pai que se suicidou ao saber que tinha um filho traidor, a mulher que ele amava que se casou com o amigo traidor, o futuro que ele tinha, toda a sua vida.

Como novo escorpiano que é, o conde quer fazer com que cada um experimente o que causou. É quando Plutão assume o papel de vingador divino. Como cobrar anos de prisão, humilhação, indigência e desespero, enquanto todos levavam suas vidas, comiam e bebiam, faziam sexo e transitavam socialmente, como se nada tivesse acontecido? A vida sem valor. Quem é que vai pagar por isto? – é a pergunta de Plutão.

O mistério é uma das facetas de Plutão. O rico conde chega ‘do nada’. Ninguém sabe qualquer coisa de consistente sobre ele. Usa uma barba (o jovem tinha um rosto barbeado, em alusão a sua transparência e ingenuidade), esconde as feias cicatrizes nas costas em belas roupas. É um homem completo em cultura e modos, mas sem origens. Mas ninguém questiona isto porque ele domina inteiramente o código social e é rico. Edmond exerce o prazer plutoniano de saber de todos e ninguém saber de si. Mas é também solitário, pois nunca pode se entregar.

A vingança de Edmond tem encaixe milimétrico. Os espertos de outrora lhe são, agora, profundamente previsíveis, quase ingênuos. Marionetes que se deixam seduzir. E sedução é um atributo deste deus mortífero, que, sem ela, fica muito feio.

E Mercedes? O antigo Edmond, para ela, assemelhava-se a um cão: afetuoso, previsível. O novo é fugidio como um gato. Mercedes fica aturdida, pois reconhece seu amado, mas está completamente diferente. Tem, sobretudo, uma frieza no olhar que seu Edmond jamais lhe dedicou. Entretanto, ela acaba por descobri-lo. É a única pessoa a fazer isto. A única, portanto, a ligar o velho e o novo, e a talvez proporcionar uma ponte entre os dois. Já foi dito que a identidade de Edmond ficou perdida depois que ele saiu da prisão. Faz parte do processo de uma grave crise que os primeiros meses depois dela não sejam muito normais. A pessoa fica meio exagerada em alguma coisa. É um mecanismo compensatório pela perda, e uma sobra de energia de Plutão, o regenerador.

O Conde e sua antiga amada
O Conde e sua antiga amada

Plutão rege o que pensamos que morreu e que renasce. É a ambiguidade de algo nunca preservar-se exatamente como é, mas também de o novo não deixar de conter uma parte do antigo. A semente original que nunca se desfaz.

Em meio ao poder e à vingança, há, também, a amargura. Edmond não pode mais voltar a ser o jovem que foi. Acredita que sua amada o traiu. O plutoniano típico se acha o único sincero e de sentimentos profundos em um mundo de superficialidades, jogos, decadência e, sobretudo, fraqueza. Neste mundo, tudo é falho e tem de ser controlado. É o oposto da temática da ingenuidade, que crê em uma perfeição inexistente e dispensa a vigília. Plutão por vezes representará a vigília exagerada, que exaure e desgasta.

Antes, Edmond vivia um mundo sem Plutão, inocente, em que as pessoas não invejavam, não agiam baseadas em paixões, não trapaceavam. Eram o que pareciam, cumpriam o que diziam. Agora, a maldade oculta – pronta para emergir se não for controlada com mão forte – transfigurando as pessoas. Apesar delas e mais forte do que elas. Um mundo somente com Plutão, tão desequilibrado quanto o anterior.

Mais uma vez, porém, o outro mudará a trajetória de Edmond Dantès. O que seria dele sem Mercedes? No que iria se transformar depois de ter derrubado um a um seus inimigos, que, afinal, foram o motivo de sua nova vida? Quanto tempo gastou com cada um deles? Há, na vingança, uma espécie de amor sem objeto, amor congelado que não pode mais ser exercido. Destruí-los é morrer pela segunda vez. Fazer o que depois? Acreditar em quem? Nas mulheres, que traem com os melhores amigos?

A verdadeira nova identidade

O reencontro com Mercedes é fundamental, pois ela mostra a Edmond que nem tudo foi falso. O sentimento dela realmente existiu. É ela quem irá restaurar o meio termo, representar o assentamento das lições aprendidas, fazer com que seu amado saia dos extremos. Se é preciso que a paixão tome de assalto para regenerar, como foi o caso, também é necessário que ela abandone o corpo febril. Depois do imenso gasto de energia, da atividade incessante, do esgotamento total e obsessivo de algo, só há uma coisa a fazer: o abandono. Terá de ser voluntário. Pára-se porque se quer, porque é preciso parar. Sair da roda obsessiva não é fácil. Lembremos, porém, que Edmond Dantès não foi libertado do exílio: teve de sair dele. Ninguém veio ao seu socorro. Ninguém virá ao nosso quando estivermos em meio a processos plutonianos de obsessão e prisão emocional, porque somente nós podemos sair deles, tal como Edmond. Plutão representa o que não pode ser solucionado, resolvido ou resgatado da forma como queremos. É uma imensa derrota, um doloroso não. Reconhecê-la é muito difícil. Há, inclusive, os que estejam sempre às voltas com temáticas plutonianas: já entram em propostas falidas, e lutam, lutam, lutam, até perderem, e tornam a entrar na luta pouco tempo depois. Parecem achar que estão imunes a Plutão.

No filme, Edmond consegue se vingar de todos os seus inimigos e recuperar a mulher amada, mas isto é sabidamente raro. Trata-se de uma fantasia inconsciente, e é por isto que a história mexe tanto com as pessoas. Parece oferecer-lhes alívio em suas perdas, compensação para suas humilhações.

Nos processos plutonianos, quando nos damos por vencidos, injustiçados, sacrificados, sacaneados, saímos do exílio quando admitimos que nada mais há para ser feito a não ser refazer a nossa vida, começar do zero e realmente deixar o passado para trás. De mãos vazias, sem compensação nenhuma, mas será tudo o que temos e que é muito precioso: somente a nós mesmos e a nossa vontade de viver. Plutão é ver o tamanho da enrascada em que estivemos, ser capaz de superar isto e aprender com o que foi vivido. É este o seu tesouro.

De tudo, o mais difícil é o perdão pelo que podemos fazer a nós mesmos. É irônico que este seja o último perdão a ser concedido. Edmond vingou-se de todo mundo, mas, na prisão, teria perdoado a si mesmo pelo jovem ingênuo que fora? Pela carta que aceitou levar? Por não ter percebido quem era seu grande amigo? Era isto que no fundo o corroía tanto quanto o que fizeram com ele.

A essência de Plutão é realizada quando deixamos tudo que esteja nos asfixiando, envenenando e seja sem solução. Através dos processos plutonianos, perdemos nossa faceta olímpica, pois é preciso admitir o engano, o dano, a perda de tempo. Nosso eu falível e que não pode ter tudo o que quer. Mas ganhamos outra, muito mais livre, humana, e, de certa forma, mais forte, estável e completa. São as lapidações de Plutão. Só descobre esta faceta quem renunciou completamente à anterior e ao passado. É exatamente a proeza de sobreviver da saída de uma ilha através de um longo lançamento ao mar.

3 comentários sobre “Plutão, Escorpião e o Conde de Monte Cristo”

Adorei, eletrizante esta leitura. Amei.
Quisera tivéssemos mais leituras como esta frequentemente.
Você é ótima nisso, deveria escrever um livro ou livros curtos baseados na astrologia com todas essas explicações astrológicas.

Sucesso,

Cleide

Adorei o seu feedback, Cleide! ♥ Amo falar de filmes e fazer correlações astrológicas. Anotada a sugestão do livro! 😉

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